ENTREVISTA

Carlos Saraiva
 
As tentativas de suicídio aumentaram em Portugal na última década. Segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, as notícias sobre o tema não ajudam à prevenção
 
Miguel Carvalho / VISÃO nº 457 6 Dez. 2001
Explica tudo tintim-por-tintim, sem preocupações de cátedra. Bem pelo contrário. De resto, pouco sentido faz vestir de meias-palavras ou rebordos de linguagem o nu e o cru das situações. Carlos Braz Saraiva, psiquiatra, presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, coordenador da Consulta de Prevenção do Suicídio dos Hospitais da Universidade de Coimbra, alerta para os riscos de continuarmos a virar a cara àqueles que, num momento de angústia profunda, tentam a morte numa última mensagem do espírito e do corpo para chamar a atenção. O para-suicídio em Portugal é um caso muito sério, mas continua desvalorizado até «por técnicos de saúde».
 
VISÃO: O que é o para-suicídio? 
 
CARLOS SARAIVA: Em determinada altura, decidimos fazer uma coisa inédita em Portugal. Desde o final do século passado que há dados sobre suicídio consumado, mas não havia números sobre as tentativas de suicídio. Muitas vezes confunde-se o suicídio frustrado (alguém dar um tiro na cabeça e falhar, tentar enforcar-se e não conseguir, por exemplo) com o para-suicídio. Neste caso, referimo-nos a pessoas com comportamentos de risco que tocam o suicídio, mas cuja intenção letal é supostamente baixa. São comportamentos mais apelativos do que destrutivos, sobretudo para tentar modificar o meio ambiente. O suicídio e os comportamentos suicidários não estão catalogados como doença, mas sim como um comportamento anómalo. Doença é o que leva a isso. O espectro final do desespero é o comportamento suicidário, mas as estradas que levam a esse ponto são diversas: depressão, droga, álcool, distúrbios da personalidade, esquizofrenia, etc.
 
V: Que estudos existem sobre o para-suicídio? 
 
CS: Os estudos sobre as tentativas de suicídio têm sido desenvolvidos ao longo da década de 90. Sendo as tentativas de suicídio ou para-suicídio um fenómeno de cariz também social, importava ver o que aconteceu na década. O estudo epidemiológico foi feito em Coimbra, mas acontece que o concelho tem um núcleo urbano e suburbano e indicadores macroeconómicos que mimetizam o todo nacional. Por isso, podemos sempre fazer alguma extrapolação meramente indicativa. Verificamos, então, que as taxas de suicídio estão a baixar em Portugal – de 900 suicídios para 600 por ano –, mas as tentativas têm vindo a subir ligeiramente: são cerca de 250 suicídios por cem mil habitantes/ano. A situação não melhorou.
 
V: Em termos europeus, é grave? 
 
CS: Comparamos estes dados com o que a Organização Mundial de Saúde fez em 15 cidades da Europa e descobrimos que Coimbra não ficava muito bem no retrato: aparecia em segundo lugar, logo a seguir à cidade francesa de Cergy-Pontoise. Isto permite supor que, a nível nacional, a taxa de tentativas de suicídio é elevada, mesmo para o panorama internacional, designadamente nas raparigas adolescentes entre os 15 e os 25 anos. Houve uma subida gradual dos comportamentos suicidários, designadamente do tipo para-suicídio, no sexo feminino, mas também no sexo masculino. Há um fenómeno novo: os homens, entre os 30 e os 35 anos, estão com taxas de para-suicídio mais elevadas.
 
V: Como se explica esta situação? 
 
CS: Estamos a falar de fenómenos altamente complexos. Não há uma relação de causa-efeito simples. Os psiquiatras têm uma explicação, os sociólogos terão outra e assim por diante. Pessoalmente, creio que as tentativas de suicídio são um comportamento. E se assim é, visam um objectivo. Isso, de algum modo, pode significar uma dimensão de desespero e de apelo que não tem, da parte dos protagonistas, outras alternativas. 
 
Aparentemente, a personalidade está na essência de muitos destes comportamentos. Isto é: as pessoas não adquiriram outras estratégias para lidar com a angústia, a solidão e o desespero e utilizam o corpo como manifesto da revolta. O corpo é assumido como linguagem, ou seja, as pessoas não conseguem resolver certos problemas com determinados estratagemas de comunicação e usam o próprio corpo para o fazer. Por isso, uma coisa é o para-suicídio (que visa mudanças de vida, isto é, a intenção letal é baixa) e outra coisa é o suicídio consumado ou frustrado que, de algum modo, pressupõe aquilo que o senso comum acha que é uma aniquilação.
 
V: Em que extracto social é mais frequente o para-suicídio? 
 
CS: Ocorre mais nas classes baixas e médias baixas. São essencialmente pessoas que vivem em territórios confinados em meios suburbanos e onde as explosões de conflitos interpessoais é muito intensa. Quase sempre, há uma figura-chave e, normalmente, este tipo de pessoas entra num serviço de urgência após uma tentativa de suicídio motivada por uma querela emocional. São pessoas que não sabem lidar com conflitos que envolvem intensamente os afectos. Entre as vulnerabilidades neurofisiológicas e as dificuldades induzidas pelo carácter há uma confluência de perturbações que podem levar, em determinadas circunstâncias, à eclosão de um comportamento suicidário.
 
V: As motivações são mais do âmbito familiar ou profissional? 
 
CS: As tentativas de suicídio acontecem com mais frequência por causa da situação familiar. O peso dos conflitos profissionais é relativamente baixo, embora ocorram mais nos homens. Nessas situações, os suicídios são normalmente consumados.
 
V: É possível definir um perfil do para-suicida? 
 
CS: São pessoas com distorções cognitivas, é como se estivessem a ver o mundo com umas lentes disformes. E quase sempre vêem o mundo de uma forma maniqueísta: os bons e os maus; o certo e o errado; o perfeito e o imperfeito; o preto e o branco; o tudo ou nada; a vida e a morte. Por isso é que uma das regras básicas de quem, como eu, faz psicoterapia, é dizer às pessoas que, entre o preto e o branco, há cinzentos. Há outros aspectos como a grandiosidade primitiva e o pensamento mágico, isto é, muitos destes indivíduos vivem a vida como se fosse um desenho animado e, nesse sentido, aproximam-se das crianças em termos intelectuais. 
 
Estes doentes são observados de acordo com uma entrevista de avaliação dos comportamentos suicidários. Pede-se-lhes para se colocarem num retrato com as pessoas mais significativas no plano dos afectos. É uma tentativa de casamento entre aspectos quantitivos e qualitativos. E isto permite-nos saber como é que uma pessoa se sente depois de uma tentativa de suicídio e aquilo que almeja mais, qual é a sua expectativa principal.
 
V: Como se pode alterar este quadro? 
 
CS: Só com uma intervenção multidisciplinar se pode atenuar esta situação, envolvendo a comunidade. Contudo, é preciso perceber que este é um fenómeno desvalorizado. Das pessoas que dão entrada nos hospitais com tentativas de suicídio, uma em cada cinco é internada num serviço de psiquiatria. Os outros quatro casos são desvalorizados até por técnicos de saúde mental. Do ponto de vista da satisfação pós-comportamento suicidário e das expectativas dos doentes, 12% nunca esperam nada de bom. Atrevo-me a dizer que, nesses, o risco de suicídio é maior numa crise posterior. Ora, aquilo que parece pueril, infantil, manipulativo ou apelativo num determinado momento pode resultar na consumação do suicídio numa fase posterior. 
 
A prevenção do suicídio começa nos chamados grupos de risco clássicos como toxicodependentes, esquizofrénicos, deprimidos graves, mas também naquelas pessoas que, em comportamentos aparentemente pueris, tentaram suicidar-se. E isso deve ser valorizado.
 
V: Como deve a Comunicação Social lidar com o fenómeno do suicídio? 
 
CS: As notícias de suicídio devem merecer apenas um breve apontamento, uma nota de rodapé. Sem falar de pormenores, sem detalhes quanto ao método do suicida e do eventual local onde foi cometido. Jamais noticiar suicídios de figuras mediáticas de forma a que possam servir de hipotético modelo para pessoas perturbadas. Corre-se o risco de glorificar o suicídio e isso provoca fenómenos de imitação. 
 
O exemplo mais emblemático a esse respeito é o caso de Kurt Cobain, vocalista do grupo rock Nirvana, que se suicidou há uns anos. Em Coimbra, tivemos vários casos de adolescentes que deram entrada no serviço de urgência dizendo que tinham tentado suicidar--se pensando em Kurt Cobain. Entre outras coisas, ele escreveu que tendo atingido a fama não havia mais nada a não ser a morte. Isto dito por um indivíduo que é tido como um modelo, um herói e um génio entre determinados jovens que estão à procura da maturidade, pode gerar um balancear entre o viver e o morrer. E pensam assim: «Então, se o Kurt Cobain, que é o meu génio, pensa isto e decidiu isto, porque é que eu não faço o mesmo?»
 
V: Em Portugal, houve exemplos desses? 
 
CS: O caso da cantora Cândida Branca-Flor. Houve um jornal, sensacionalista, que ocupou toda a primeira página com a fotografia dela e, inclusive, publicou alguns dizeres indevidos do ponto de vista ético. Se já em termos noticiosos é duvidoso fazer isto, decididamente não é uma boa estratégia em termos de prevenção do suicídio. 
 
Quando se aborda de uma forma pormenorizada o suicídio de uma figura pública deve-se, pelo menos, incluir dados sobre as estratégias de prevenção e os sítios a que as pessoas podem recorrer. Caso contrário, a notícia pode ser apenas o interruptor, pois vai mexer com muita gente que está deprimida, já tentou suicidar-se ou está na iminência de o fazer.
 
V: De uma forma geral, a Comunicação Social procede mal? 
 
CS: A forma como trata estes assuntos é desastrosa. Dou-lhe mais um exemplo: houve o caso de um jovem que desapareceu. Isolou-se num parque de campismo da zona centro do País, eventualmente com o objectivo de cometer suicídio. A família recorreu à comunicação social e o pai apareceu na televisão a dizer que o filho tinha desaparecido e provavelmente já estaria morto. Esse jovem veio ter comigo – era meu doente – e não imagina o investimento que foi preciso fazer em termos psicoterapêuticos, não só para resolver os problemas que o levaram a várias tentativas de suicídio, mas também para que conseguisse ultrapassar a mediatização do assunto. Mesmo no caso do jornalista Miguel Ganhão Pereira, a Comunicação Social não esteve bem. E talvez isso explique o facto de ter havido, logo a seguir, outras tentativas de suicídio na Ponte 25 de Abril.
 
Notas:
1. Carlos Braz Saraiva é natural de Coimbra, onde nasceu em 1950. Licenciou-se em Medicina em 1975 e é doutorado em Neuropsiquiatria (Psiquiatria e Saúde Mental). É professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da «velha» cidade universitária e coordena a Consulta de Prevenção do Suicídio dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Preside também à Sociedade Portuguesa de Suicidologia. A morte, enquanto «último tabu do final do século XX», é um dos motivos de reflexão nos vários livros que tem publicados.
 
2. Publicação de entrevista autorizada pela Direcção da Visão.
 
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