Ao longo dos últimos meses têm sido noticiados diversos suicídios que a imprensa tem correlacionado com o momento de crise económica que estamos a viver.
 
Recentemente, em Portugal, o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental admitiu aos jornalistas que "as doenças mentais comuns estão e vão aumentar com esta crise devido a factores ligados à depressão e à ansiedade" (da imprensa; 16-02-2009).
 
Parece-nos, por isso,  importante e oportuno tecer algumas considerações acerca não só da saúde mental mas também sobre o suicídio em circunstâncias de crise, como a actual.
Em primeiro lugar convém clarificar que o suicídio não constitui uma "doença" ou "patologia mental" reconhecida como tal. O suicídio é, na sua essência, um comportamento determinado por múltiplos factores, entre os quais se encontram, também, as doenças mentais (ou psiquiátricas). Na verdade, os profissionais que se ocupam do estudo e prevenção do suicídio referem-se frequentemente ao termo abrangente "comportamentos suicidários" a fim de considerar precisamente todos os comportamentos de índole auto-destrutiva, em maior ou menor grau, independentemente do seu desfecho (letal ou não).
 
Efectivamente, diversos e diferentes estudos científicos e epidemiológicos têm referido que aproximadamente 90% das pessoas que morrem vítimas de suicídio apresentam alguma patologia psíquica diagnosticável.
 
Por outro lado a correlação entre o suicídio e aspectos de coesão ou desagregação social é conhecida, pelo menos, desde os trabalhos do sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) publicados em 1897.
 
É facilmente compreensível, mesmo para um leigo na matéria, que o sofrimento psíquico - muitos dirão: o stress - induzido por acontecimentos como a perda de emprego (ou a sua eminência), a perda de estatuto social acarretada pelo mesmo, as consequentes dificuldades económicas traduzidas na impossibilidade de honrar compromissos financeiros anteriormente assumidos ou, muito simplesmente, de colocar comida em cima da mesa possam evocar, no mais saudável e sensato dos seres humanos, sentimentos de desespero e desesperança que o façam, no mínimo, pensar o suicídio como uma "saída de emergência".
 
Sabemos, porém, que menos de 1% das pessoas que pensam em suicídio acabam por passar ao acto e esta deverá ser considerada, acima de tudo, uma mensagem de esperança.
 
Assim, a promoção da saúde mental e a prevenção do suicídio em momentos de crise económica não se esgota na medicina psquiátrica e/ou na disponibilização de mais ou melhores meios clínico-psiquiátricos ou psicológicos.
 
O aumento, face à crise, das "doenças mentais comuns" a que alude o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental refere-se a um aumento de síndromas ansiosos e/ou depressivos reactivamente a factores externos (ao indivíduo) e, por isso mesmo, conhecidos, entre os técnicos, pelas designações de "Depressão Reactiva", "Reacção Ansiosa" ou, mais pomposamente, "Reacções de Ajustamento com Humor Depressivo ou Ansioso", conforme os casos.
 
Deste modo, o "tratamento" de tais "doenças" terá que ir a montante destas e dirigir-se ao(s) factor(es) de causalidade das mesmas, não se compadecendo com meros tratamentos paliativos com psico-fármacos, ou mesmo, com hercúleos esforços psico-terapêuticos.
 
Será, portanto, imprescindível a execução de medidas de natureza sócio-económica dirigidas à protecção individual, mas também familiar e comunitária que promovam a coesão e o suporte inter-pares.
 
Felizmente, nos tempos que correm, vivemos num país com forte presença do estado no sector social, herança da Revolução de 1974, visível através de diferentes prestações e subvenções sociais dirigidas aos mais carenciados e desprotegidos. Face a economias ultra-liberais, como a norte-americana, onde o individualismo é a palavra de ordem, acabamos por nos encontrar consideravelmente mais protegidos. Atentemos  ao conjunto de medidas anunciadas pelo actual Presidente dos EUA para mitigar os efeitos da crise e que já lhe valeram ser apodado de "socialista" durante a campanha eleitoral.
 
Lamentavelmente não basta dispor de médicos psiquiatras ou de serviços de psiquiatria para acudir aos efeitos da crise sobre a saúde mental das populações.
 
Não há cápsulas, comprimidos ou psico-terapias estruturadas capazes de resolver problemas como a pobreza, a miséria económica ou a exclusão social.
 
O que não significa que os psiquiatras, enquanto médicos com especiais preocupações humanistas, não constituam capital humano fulcral na abordagem do problema.
 
De resto, como tem sido sublinhado na comunicação social, não são (apenas) os mais economicamente carenciados os que se suicidam.
 
O desespero, a solidão, o afunilamento da consciência e a desesperança no futuro não são predicados exclusivos de nenhuma classe social.
 
Mas as pessoas não precisam de sofrer sozinhas.
 
Por isso existem, além das comuns Consultas de Psiquiatria e Serviços de Urgência Psiquiátrica em Hospitais Gerais, diferentes Consultas especializadas na Prevenção do Suicídio e linhas telefónicas de apoio espalhadas, mais ou menos, de Norte a Sul do país.
 
Às vezes uma palavra de conforto, um ouvido empático ou um abraço vindo de um amigo, ou conhecido, podem ser mais terapêuticos que o melhor dos psiquiatras ou psicólogos.
 
Mas é necessário mais.
 
As palavras de M. Scott Peck (1936-2005), psiquiatra norte-americano, publicadas originalmente em 1978, nunca fizeram tanto sentido como agora:
 
«A vida é difícil. (...) A maior parte das pessoas não vê inteiramente esta verdade de que a vida é difícil. Em vez disso, lamentam-se mais ou menos incessantemente, ruidosa ou subtilmente, da enormidade dos seus problemas, encargos e dificuldades, como se a vida fosse fácil de um modo geral, como se a vida devesse ser fácil. Proclamam a sua crença, ruidosa ou subtilmente, de que as suas dificuldades representam uma espécie única de atribulação que não deveria mas de algum modo lhes foi especialmente dirigida, ou às suas famílias, à sua tribo, à sua classe, à sua nação, à sua raça ou até à sua espécie, e não a outros.
 
Eu conheço esta lamentação porque já fiz a minha parte.
 
A vida é uma série de problemas. Queremos lamentar-nos ou resolvê-los? (...)»
(in "O Caminho Menos Percorrido", Ed. Sinais de Fogo)
 
 
Sobre o autor:
Nuno Pessoa Gil, é Médico Psiquiatra e sócio da SPS

 

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